Era uma tarde amena de um dos últimos dias do verão. O sol brilhava impunemente e estendia um manto alourado nos prédios que desenham a arquitetura moderna da orla marítima de Boa Viagem. Andava com um amigo e compadre lá das distantes terras germânicas. Ele preza pela praia e por estar passando uma semana aqui em meu apartamento, o acompanhei. Dos nove anos que moro em Recife, creio que fui à praia umas oito vezes, e das oito, lembro apenas uma vez que mergulhei nas águas límpidas e cristalinas do nosso mais paradigmático litoral pernambucano.
Não sou um dos maiores amantes das águas salgadas, mas gosto das tardes amenas que cobrem os prédios das orlas de todas as cidades litorâneas. Há um quê de irmandade em todas elas. O céu nos conflui num mesmo olhar e o mar nos engrandece com sua mesma violência e desassossego. O mar... Desassossegado como os homens que confundem satisfação com a verdadeira felicidade.
Queria poder dizer que era um meio dia de fim de primavera, mas não sou poeta para tanto. Nem quero sê-lo e nem aqui tem primavera. A tarde, calma e serena. Indiferente a todos nós com nossas angústias e vaidades particulares. Uma música descompromissada parecia surgir de lugares incertos e penetrar lá fundo na alma. O soar do vento e as batidas quebradiças das ondas. Era apenas uma tarde e nada mais.
Naquele dia compreendi que as poesias são como os números, não são infinitas, mas indefinidas. Sempre pode surgir mais uma, sempre uma nova esperança tão parecida com a de outros tempos, mas numa eterna novidade. Uma tarde do século XXI e parecia tão nova. E a poesia constante do mundo a repetir manhãs e noites.
Tantas palavras e escrevo o que vi e entendi. Estava precisando de uma tarde assim e fazia tempo que não a reencontrava. Sempre nova e sempre muito bonita. A cidade muitas vezes nos exila da beleza. Uma tarde num fim de verão nos indicando que as borrascas irão começar, que o céu vai chorar. Porém alegres e firmes enfrentemos as tempestades. O que nos protegerá dessa chuva é termos um espírito cheio de fogo e serenidade, como aquela tarde amena de um dos últimos dias de verão.
Antônio Manuel
28-III-2009


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