OS RITUAIS
O desenvolvimento da tourada, como vimos no artigo “A tourada – sua História”, culminou, a partir do século XVIII, em modificações definitivas para a lide com touros bravos, partindo de certas regras e técnicas que sintetizaram o crescimento orgânico da tauromaquia. A palavra “tauromaquia” é oriunda do grego ταυρομαχία - tauromachia (combate com touros), e consiste em observar os princípios e regras na arte de tourear, codificados ao longo dos séculos, aos quais os toureiros devem respeitar para lograr as pontuações ao longo da temporada.
Na Espanha, as temporadas ocorrem entre os meses de Março e Outubro, todos os domingos. Entre Maio e Junho temos início da alta temporada onde todos os dias há “corridas de touros”. Nessa mesma época acontece a "Feria de San Isidro'' (festa de touradas), quando acontecem as melhores touradas, com os melhores touros e disputas entre os toureiros. Os centros desses espetáculos ocorrem na “Plaza de Las Ventas”, “Plaza de Sevilha” (entre muitas outras) as principais da Espanha, onde se espremem milhares de pessoas para verem homens de valor desafiarem a morte. Ao longo do festival que dura 20 dias, no ponto alto das touradas em Madri, diariamente há corridas, que começam costumeiramente às 7 da noite (nessa época em Madri o sol se põe às 8 da noite). O festival apresenta touradas com Novillos (touros jovens) para iniciantes, em geral adolescentes, Rejones (touradas a cavalo) e Goyesca (tourada com roupas de época, que ocorrem oficialmente nos primeiros dias de setembro, com o início da “Feria de Pedro Romero”). Durante o festival é a única época em que se pode observar os touros de perto, em seus currais, antes de serem transportados para a Plaza,
Cada “corrida de toros” dura em torno de 2 horas, contudo não se fixa tempo para o término. Começa aqui um espetáculo carregado de significado, cheio de símbolos, costumes, tradição e cultura.
Desfile de cuadriillas
Homens conversam, moças colocam suas mantilhas, jovens e velhos, todos aguardam o início da corrida. Música boa para um espetáculo nobre, agrupações musicais tocam os formosos pasodobles, elevando o espírito dos espectadores. Com a entrada das Cuadrillas dá-se o início da tourada. O “desfile de cuadrillas” ou “paseíllo” consiste em dar uma volta ao redor da arena com toda a equipe dos três matadores do dia (costumeiramente são três, mas podem variar), a fim de apresentarem-se ao público, saúda-los e dar início à tourada. Aqui, contudo, pode ocorrer uma cerimônia chamada “la alternativa”, na qual o toureiro mais veterano cede ao novillero ou toureiro principiante (que apenas lutava com touros jovens de 3 ou 4 anos), a preferência de abrir a corrida. Essa cerimônia atesta ao jovem toureiro o “diploma” de matador, conferindo-lhe o status de toureiro profissional. A cerimônia é concluída quando, ao chegar o momento da estocada, o toureiro veterano, que dora em diante será seu padrinho, dá ao seu afilhado “los trastos de matar” (a muleta e a espada), que por sua vez retribui o gesto dando seu capote ao veterano. O padrinho lhe dá alguns conselhos e um abraço, na presença de outro matador, que atesta o testemunho da cerimônia. Uma tradição belíssima que lembra os tempos de cavalaria, da primavera da Fé, nos tempos em que "havia escudos brancos, quando havia cruzados francos". 
A ordem do desfile é regulamentada e assim definida: precedidos pelos “alguacilillos”, agentes encarregados de transmitir e executar as ordens do presidente da lídia, os “toreros” (toureiros) ou “rejoneadores” (matadores à cavalo), são situados por ordem de antiguidade desde que tomaram “la alternativa”. Vistos de frente, o toureiro da ponta direita corresponde ao mais veterano, sendo o do meio o mais novo e o da esquerda o intermediário. Por detrás da fila dos matadores, vão os três “banderilleros” do primeiro toureiro, na terceira fila os do segundo toureiro e na quarta fila os do terceiro, observando-se da direita para a esquerda a veterania de cada um. Segue-se, de dois em dois, os “picadores” montados a cavalo, ordenados pela antiguidade dos seus chefes. Por fim entram os “mozos de caballos” e “areneros”, assim como “los mulilleros”, que ficam responsáveis por removerem o touro morto da arena.
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Organização do desfile
INÍCIO DA PRIMEIRA “FAENA”.
Depois do desfile das “cuadrillas”, a tourada começa em seguida, tendo início a primeira “faena”, secções de aproximadamente 20 minutos para cada toureiro, divididas, por sua vez em três subsecções chamadas “tercios”. Cada toureiro luta com 2 touros, dividido em dois turnos. Em cada turno os três toureiros lutam um após o outro, segundo a ordem de sua ‘antiguidade’.
O primeiro tercio da faena consiste na apresentação do touro recebido pelo toureiro por uma grande capa chamada “capote”. Os “tercios” são também ditos “suertes”. A primeira é a “suerte de verónica”.
1º Terço – “Suerte de Verônicas”
Pasee com capote chamado "Chicuelina"
É com o capote, uma larga capa bicolor (fúcsia de um lado e amarela de outro), que o toureiro faz o reconhecimento do touro, sua bravura, força, modo de ataque e faz seus próprios julgamentos, definindo como lutará com o animal, avaliando sua coragem e a validade geral da luta. Detalhes como o modo de “chifrar” do touro são percebidos, enfocando o toureiro qual dos chifres é o mais acidentado, pois o chifre mais “arranhado” do animal corresponde ao seu ataque principal, ao seu golpe costumeiro, golpe que o toureiro terá que tomar cuidado... Um cuidado do qual depende sua vida.
Uma dezena de “pases con capote” ilustra esse belo combate com o touro. O mais comum é a “verónica”, com a qual o toureiro recebe o touro segurando o capote com as duas mãos, incitando o touro para o ataque, e recuando a perna contraria para atrair a investida do animal, fazendo com que o mesmo passe por ele violentamente. Várias outras poderiam ser citadas e explicadas aqui, como a “media verónica”, “largas”, “gaonera”, as belas “chicuelinas”, “porta gayola” entre tantos outros tipos de passes com o capote, porém este artigo se detém a explicar os rituais da tourada como um todo. Prometemos um outro artigo com explicação, fotos e vídeos de cada um dos passes com “el capote”.
2º TERÇO – “SUERTE DE VARAS” OU “SUERTE DE BANDERILLAS”
Num segundo passo, entram em cena os picadores e os banderilleros. No primeiro tercio o matador procurou cansar o touro, de forma que pudessem entrar em ação os picadores, homens montados à cavalo portando uma lança de
é necessária para que se ponha a luta de igual para igual, entre touro e toureiro. Ademais, sem ela uma tourada nunca terminaria, pois o touro é um animal tão espetacularmente forte e feroz que bastaria um pouco de descanso para retomar rapidamente suas energias. A puya assim como as banderillas, visam algumas terminações nervosas que ficam por detrás do pescoço do animal, para diminuir a força dos músculos e das patas dianteiras do touro, tornando-o mais lento e sobretudo fazendo-o baixar a cabeça. O picador então atrai o touro em sua direção e neste momento se mede a bravura e se dosa a força do touro para o resto da lídia, fazendo-o sangrar, avaliando ao mesmo instante, sua reação ao castigo. Muito frequentemente, o touro em sua investida, faz derrubar o picador e seu cavalo vestido de com uma “armadura” de feltro e couro.
Em seguida, os banderilleros dão continuidade ao espetáculo. Sem dúvida, cabe a estes homens umas das mais corajosas tarefas da lídia: enfrentar o
touro cara a cara, sem capotes ou muletas, ofertando o seu peito ao feroz
animal. Por vezes, o próprio matador dispensa seus banderilleros da cuadrilla, e põe, ele mesmo, os três pares de banderillas no touro. A avaliação feita pelos jurados analisa três pontos da regra em se por as banderillas. 1) O banderillero deve chamar o touro desde certa distância; 2) Touro e toureiro devem começar a correr ao mesmo tempo e encontrarem-se de tal modo que pareça que vão se chocar um com o outro; 3) O toureiro deve sair do encontro de forma graciosa, tanto quanto possível, e sem medo, sem pressas.
3º TERÇO – “SUERTE DE MATAR”

Sebastián Castella - incita o touro a vir ao seu encontro
Após a imposição das banderillas, o soar de uma música específica anuncia, como fim de uma obra de arte marcada com o selo trágico, o momento em que o matador é chamado para o combate final, lançando-se a “suerte de matar”. No fim desse tercio, ou o touro ou o toureiro ficará de pé. Nesta parte final da faena se dará o desfecho do combate, onde o tom sacrifical dessa arte expõe aos olhos dos espectadores a perigosa oferta de vida que touro e toureiro escancaram num combate justo e leal.
Nesta etapa, o toureiro já teve tempo suficiente para conhecer o touro, a forma como ataca, sua bravura e sua força. Contudo, o mais importante não é o conhecer o animal, mas arrancar dele toda a sua ferocidade e brio, pois disso depende o sucesso do combate. A coragem, habilidade, ousadia, o porte e auto-controle do toureiro são minuciosamente avaliados pelo presidente da corrida e pelos espectadores. Dos passes dados com a muleta (capa vermelha de
toureiros morreram justo neste trecho da lidia, ou saíram gravemente feridos. E não por insanidade ou simples descuido, mas sim como dizia o poeta João Cabral de Melo Neto porque “O sujeito tem de viver no extremo de si mesmo. Eu vejo isso na tourada. O bom toureiro é o que dá impressão ao público de que vai morrer”. O matador é obrigado a incitar o touro a
atacá-lo violentamente e fazer tão feroz animal passar quase “roçando” no seu corpo. A isso se dá o nome de expornese (expor-se, arriscar-se), segundo os espanhóis. É esse o verbo mais apreciado em toda a lídia, do qual as ramificações naturais da elegância, domínio sobre o animal, habilidade e etc, são secundariamente analisados. O dever do toureiro é de proporcionar o melhor espetáculo ao público, e quanto maior a sua ousadia e investidas do touro às suas provocações, mais o público reagirá com júbilo a eventual vitória do matador.
Os trastos de matar (muleta e estaquillador), elementos principais para o
desenlace da luta, são usados de forma que a espada fique dentro do capote, deixando o mesmo mais extenso. Isso, porém acontece geralmente nos primeiros passes. Para dificultar e proporcionar o exponerse, o toureiro retira a espada, tornando maiores os riscos no combate. Os principais “pases de muleta” são: “Natural”, “Derechazo”, “Trinchera”, “Pase de pecho”. Como dito, voltaremos a escrever sobre cada um deles, explicando seus movimentos, formas e condições.
Com o final dos passes, depois de ter levado o touro a exaustão de suas forças, o toureiro troca a espada falsa (rígida), pegando o estaquillador verdadeiro, uma espada bastante flexível. Pondo-se de frente ao touro, o matador o distrai com a muleta, apontando-a para baixo, de forma que o touro baixe a cabeça
consideravelmente, deixando o dorso do animal à mostra, onde ele tentará enterrar sua espada num local chamado “el hoyo de las agujas”, de modo que a morte do animal seja a mais rápida possível. Algumas formas mais conhecidas de matar o touro são: “Recibiendo”, “Volapié”, “Al encuentro”, “Suerte Natural” e “Suerte contraria”, das quais falaremos noutro artigo.
O interessante é que até esse último momento dependerá a glória do matador. Se acaso ele der uma estocada perfeita, que vá direto no coração, o touro morrerá em segundos, ao contrário de sua glória. Caso não tenha sido exatamente no coração, as estocadas chamadas “trasera” ou “delantera”(respectivamente atrás ou diante do coração), o touro demorará mais a morrer, talvez precisando que se dê um golpe de misericórdia no seu cérebro com um tipo especial de espada, diminuindo o tempo de sua morte. Contudo, se o toureiro errar completamente a estocada, fazendo sofrer o touro, receberá uma vaia e desaprovação dos espectadores/críticos que simplesmente põe a perder toda a sua atuação na arena.
Em caso de ótima apresentação, o público levanta as "almohadillas" ou lenços brancos e os agitam no ar, pedindo para o presidente que o toureiro ganhe o “troféu”. O presidente da prova decide-se positiva ou negativamente. Se aprovar a premiação, colocará um ou dois lenços brancos no parapeito de sua tribuna, o que significa que o toureiro receber uma ou duas orelhas do animal morto, que serão cortadas por um dos seus auxiliares e entregues ao toureiro pelos alguacilillos. Se a corrida foi julgada de valentia e bravura máximas, o presidente coloca além dos lenços brancos, um verde, que significa que além das duas orelhas, seja cortado o rabo do touro e dado ao toureiro. Diz-se, neste caso de premiação máxima, que o toureiro terá ‘aberto´ a Puerta Grande, o prêmio máximo para um toureiro. Em atuações mais medíocres, o toureiro apenas se retira com sua cuadrilla, sem nenhuma premiação.
Henrique Ponce -Premiação máxima e Puerta Grande
Nos dois casos, após o fim da faena, o touro será arrastado pelos mulilleros, através de cavalos que arrastam o animal pelo chifre e o encaminham para o açougue, onde será tratado e vendida a sua carne a preços simbólicos.
Ainda na suerte de matar pode acontecer algo inusitado. Alguns touros por sua máxima bravura e excepcional coragem, por não cederem um momento sequer no combate, durante toda a faena, podem ser indultados pelo público por ser um animal fabuloso, decidindo assim que sobreviva. Além de ser muito raro nas touradas é uma cena que definitivamente coroa a arte da tauromaquia.
Conclusíon
Este belo jogo de contrastes, que passa nos nossos olhos como um majestoso espetáculo da vida, trágica em si mesma, na qual homens enfrentam de pé a morte que a eles se apresenta, um combate entre homem e animal, da primazia da inteligência sobre a força bruta, da coragem sobre os instintos mais primitivos do homem, este belo conduzir representa o nosso efêmero peregrinar. Aqui estamos e somos peregrinos. Cabe a nós bem viver, brava e corajosamente, combatendo o bom combate.
As corridas nos lembram de uma bela música que nos ensinou um velho – e jovem – professor:
Buena semana
Buena semana nos dé Dios,
Naranjas dulces con abricós,
Rojas manzanas, cas’florida,
Salud y vida!
Todas las cosas nos da Dios
Y con su gracia biendecida!
Una casa blanca, muchos hijos,
Tierra regada, ovejas y bos,
Guerdo jamón y, todo día,
Vino y alegría!
Guerdo jamón y cantorias,
Con vino rojo, largos días!
Con este canto en compañía
Que el vino rojo dé alegría!
Y en el domingo, que es día de Dios,
La santa Missa y luego após,
Ver España frente a toros
Y a luz del día,
Mirar la muerte en la corrida,
“a matar” y a dar la vida!
Y a la noche – que alegría!-
Con vino rojo, cantoria!
Santas batallas nos dé Dios,
Firme coraje, ardiente amor,
Alegre canto sin temor
Al dar la vida!
Al combatir con gallardía
Por tu honor Virgen Maria!
Por Dios y España, y por el Rey,
Por Santa Iglesia, fueros y ley,
Nuestra bandera tan altanera,
Jamás vencida,
Contra impiedad más atrevida
Por Dios matar o dar la vida!
Que buen perdón nos dé Dios,
Nos dé su paz en nuestro adiós,
Por Ti morir con alegría,
Virgen Maria!
Y un día morir con alegría,
Por tu honor, Virgen Maria!
En la cruzada más aguerrida
Por Dios matar y dar la vida!
Orlando.Fedeli. - 1999
Destacamos as estrofes da música Buena Semana, para ressaltar uma última tradição que está inteiramente arraigada no coração das corridas de toros. Não tem como pensar em todos esses rituais da tourada desprezando-se a devoção e a fé que os toureiros tem
Toureiro ante a imagem da Santa Virgem, rezando antes da faena.
Auxilium Christianorum, ora pro nobis!
Por Emílio Paulo
Recife, 08/02/2009









eu odeio esse site
ResponderExcluirQue sarcasmo.... será que a virgem ficaria do lado do toureiro ou do touro?
ResponderExcluirQuanta hipocrisia!
Protejam os animais dessas pessoas insanas, soltas por ai, na forma de ídolos...
Sou apaixonado por touradas e fã de El Juli e Cordobés. Não existe imbecilidade maior que o boxe.
ResponderExcluirGente, quanta intolerancia, as touradas fazem parte da cultura espanhola há seculos!!! É uma luta homem x touro. Creiam o touro com certeza é muuuiiito mais forte que o homem! Por isso a aprecisação do toureiro e de suas tecnicas. me pergunto se essas pessoas que impostaram esses comentários, se elas já viram como são criados e confinados os bovinos que são abatidos para o consumo. E as granjas de suinos e aves? Creio que haja hipocrisia da parte deles. A intolerancia nos iguala aos animais.
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