Segundo o Portal Taurino, site da internet que traz todas as informações sobre touros, toureiros e touradas, além de Manolete participaram daquela 'corrida' fatídica Rafael Vega de los Reyes, o "Gitanillo de Triana", e Luis Miguel Dominguín. Os três se alternaram na arena, e diz também o Portal — e eu traduzo aqui para o português — que, quando Manolete voltou, Gitanillo e Dominguín já tinham cortado uma orelha cada um. Isso significa que haviam toureado melhor do que Manolete, que na primeira exibição não agradou ao público. Quando ele retorna à arena para enfrentar o touro miúra "Islero", o quinto da tarde, se esforça por dar o melhor de si e apagar a má impressão anterior. Após uma atuação à altura de seu prestígio, começa a matar bem devagar o touro, com a muleta (pau que encobre a capa) junto à cintura, e então o touro lhe enfia o chifre na coxa direita. O toureiro começa a sangrar violentamente.
Os assistentes levantam Manolete e erram o caminho para a enfermaria, levando-o em direção ao pátio de cavalos. O ferido chega à enfermaria sete minutos depois da chifrada. O médico da Plaza de Toros, Fernando Garrido Arboledas, declara Manolete vítima de uma "ferida de chifre de touro situada no Triângulo de Scarpa, com 20 centímetros de comprimento de baixo para cima e de dentro para fora (...) com ruptura da veia safena, e contornando a região muscular da artéria femoral".
O toureiro diz que não sente a perna, enquanto fuma um cigarro. Às 23h, ele é trasladado ao Hospital de Linares, e o médico de Las Ventas, Luis Giménez Guinea, chega de Madri e autoriza a transfusão de um soro de plasma com o objetivo de regenerar o sangue do ferido. Às 5h07 de 29 de agosto, Manolete pronuncia suas últimas palavras diante do Dr. Luiz Giménez Guinea: "Que desgosto vou dar à minha mãe! Don Luiz, eu não vejo, não vejo nada".
O Portal Taurino informa ainda que o ensangüentado "traje de luces" de Manolete foi levado para exibição no Museu Taurino de Madri, e a cabeça do touro "Islero" colocada no Museu Taurino de Sevilha.
Um tema para poetas
Muitos foram os poetas espanhóis, especialmente os da Andaluzia, que se inspiraram nas 'corridas de toros'. O mais famoso dentre eles é o granadense Federico García Lorca (1898-1936), que em 1935 homenageou um toureiro tragicamente morto com seu longo e comovente 'Llanto por Ignacio Sánchez Mejías', mais tarde musicado. Muito antes, o cordobês Luis de Góngora (1561-1627) escrevera 'De unas fiestas en Valladolid', enaltecendo a 'plaza', os touros e os toureiros, o que também fez Francisco de Quevedo (1580-1645) em seu poema 'A la fiesta de toros y cañas del Buen Retiro, en día de grande nieve'. José Perez de Montoro (1627-1694) escreveu 'Definición de un toro herido', e Nicolás Fernandez de Moratín (1737-1780) 'Fiesta antigua de toros en Madrid'. José Zorrilla (1817-1893) prestou homenagem a 'El Picador', o toureiro a cavalo que, logo no início da 'faena', pica o touro com uma garrocha (haste de madeira com ponta de ferro farpeada). Até mesmo o tcheco Rainer Maria Rilke (1875-1926) poetizou a 'Corrida', verso escrito em Paris em 3 de agosto de 1907.
Dentre os brasileiros, quem se inscreveu belamente nesta tradição foi o pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), um dos maiores poetas de todos os tempos, que viveu na Espanha, inicialmente como vice-cônsul do Brasil em Barcelona, e era um apaixonado por touradas. Os qualificativos de discreto e sóbrio, atribuídos a Manolete, podem perfeitamente se aplicar ao brasileiro, que em 27 de outubro de 1987, numa entrevista ao jornal "A Tarde", de Salvador (BA), falou com emoção sobre o famoso toureiro, como se pode ler a seguir:
"É, realmente a corrida de touros é uma coisa extraordinária. Eu cheguei a Barcelona em 1947, e vi Manolete tourear duas vezes. Nesse ano, ele toureou em Barcelona duas vezes [antes de morrer] (...) e ele ainda ia tourear em Barcelona naquele ano, e nós tínhamos um amigo em comum que me ia apresentar a ele. Eu não conheci Manolete pessoalmente. Essa pessoa dizia que foi uma pena eu não o ter conhecido porque era um sujeito com quem eu ia me entender muito bem. Esse amigo me dizia que eu tinha deixado de conhecer uma pessoa de quem seria, certamente, um grande amigo, por causa do temperamento dele (...) retraído, calado".
E prosseguiu nosso poeta: "Era um homem de origem humilde, o pai dele foi um toureiro, de forma que Manolete começou carregando pedra numa estrada. Agora, ele era de uma curiosidade intelectual enorme. Dizem que quando ele se encontrava com dois escritores, por exemplo, ou qualquer sujeito que estava falando de um assunto de que ele não entendia, ele não dava uma palavra. Ficava curioso, ouvindo tudo, e não dizia besteiras. Ele procurava suprir aquela falha de cultura — que ele não teve, coitado, porque foi obrigado a trabalhar — por essa curiosidade intelectual. Era um homem extraordinário".
Mais tarde, o embaixador João Cabral de Melo Neto morou em Sevilha, cidade que amava profundamente. Em seu livro "Poemas Sevilhanos", publicado pela Nova Fronteira em 1992, ele escreveu alguns poemas sobre touradas, como 'Touro andaluz' ou 'A Praça de Touros de Sevilha', e dedicou outros a 'matadores' famosos, tais como Belmonte, Galitto, Manolo Gonzáles e Litri. Mas logo no primeiro poema do livro, dedicado ao amigo Antônio Houaiss, Cabral analisa as diferentes formas de tourear dos mais renomados toureiros, e conclui que o melhor deles era Manolete, apelidado entre os espanhóis de "El Monstruo" pela maneira seca, sem firulas, com que enfrentava o touro:
Os assistentes levantam Manolete e erram o caminho para a enfermaria, levando-o em direção ao pátio de cavalos. O ferido chega à enfermaria sete minutos depois da chifrada. O médico da Plaza de Toros, Fernando Garrido Arboledas, declara Manolete vítima de uma "ferida de chifre de touro situada no Triângulo de Scarpa, com 20 centímetros de comprimento de baixo para cima e de dentro para fora (...) com ruptura da veia safena, e contornando a região muscular da artéria femoral".
O toureiro diz que não sente a perna, enquanto fuma um cigarro. Às 23h, ele é trasladado ao Hospital de Linares, e o médico de Las Ventas, Luis Giménez Guinea, chega de Madri e autoriza a transfusão de um soro de plasma com o objetivo de regenerar o sangue do ferido. Às 5h07 de 29 de agosto, Manolete pronuncia suas últimas palavras diante do Dr. Luiz Giménez Guinea: "Que desgosto vou dar à minha mãe! Don Luiz, eu não vejo, não vejo nada".
O Portal Taurino informa ainda que o ensangüentado "traje de luces" de Manolete foi levado para exibição no Museu Taurino de Madri, e a cabeça do touro "Islero" colocada no Museu Taurino de Sevilha.
Um tema para poetas
Muitos foram os poetas espanhóis, especialmente os da Andaluzia, que se inspiraram nas 'corridas de toros'. O mais famoso dentre eles é o granadense Federico García Lorca (1898-1936), que em 1935 homenageou um toureiro tragicamente morto com seu longo e comovente 'Llanto por Ignacio Sánchez Mejías', mais tarde musicado. Muito antes, o cordobês Luis de Góngora (1561-1627) escrevera 'De unas fiestas en Valladolid', enaltecendo a 'plaza', os touros e os toureiros, o que também fez Francisco de Quevedo (1580-1645) em seu poema 'A la fiesta de toros y cañas del Buen Retiro, en día de grande nieve'. José Perez de Montoro (1627-1694) escreveu 'Definición de un toro herido', e Nicolás Fernandez de Moratín (1737-1780) 'Fiesta antigua de toros en Madrid'. José Zorrilla (1817-1893) prestou homenagem a 'El Picador', o toureiro a cavalo que, logo no início da 'faena', pica o touro com uma garrocha (haste de madeira com ponta de ferro farpeada). Até mesmo o tcheco Rainer Maria Rilke (1875-1926) poetizou a 'Corrida', verso escrito em Paris em 3 de agosto de 1907.
Dentre os brasileiros, quem se inscreveu belamente nesta tradição foi o pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), um dos maiores poetas de todos os tempos, que viveu na Espanha, inicialmente como vice-cônsul do Brasil em Barcelona, e era um apaixonado por touradas. Os qualificativos de discreto e sóbrio, atribuídos a Manolete, podem perfeitamente se aplicar ao brasileiro, que em 27 de outubro de 1987, numa entrevista ao jornal "A Tarde", de Salvador (BA), falou com emoção sobre o famoso toureiro, como se pode ler a seguir:
"É, realmente a corrida de touros é uma coisa extraordinária. Eu cheguei a Barcelona em 1947, e vi Manolete tourear duas vezes. Nesse ano, ele toureou em Barcelona duas vezes [antes de morrer] (...) e ele ainda ia tourear em Barcelona naquele ano, e nós tínhamos um amigo em comum que me ia apresentar a ele. Eu não conheci Manolete pessoalmente. Essa pessoa dizia que foi uma pena eu não o ter conhecido porque era um sujeito com quem eu ia me entender muito bem. Esse amigo me dizia que eu tinha deixado de conhecer uma pessoa de quem seria, certamente, um grande amigo, por causa do temperamento dele (...) retraído, calado".
E prosseguiu nosso poeta: "Era um homem de origem humilde, o pai dele foi um toureiro, de forma que Manolete começou carregando pedra numa estrada. Agora, ele era de uma curiosidade intelectual enorme. Dizem que quando ele se encontrava com dois escritores, por exemplo, ou qualquer sujeito que estava falando de um assunto de que ele não entendia, ele não dava uma palavra. Ficava curioso, ouvindo tudo, e não dizia besteiras. Ele procurava suprir aquela falha de cultura — que ele não teve, coitado, porque foi obrigado a trabalhar — por essa curiosidade intelectual. Era um homem extraordinário".
Mais tarde, o embaixador João Cabral de Melo Neto morou em Sevilha, cidade que amava profundamente. Em seu livro "Poemas Sevilhanos", publicado pela Nova Fronteira em 1992, ele escreveu alguns poemas sobre touradas, como 'Touro andaluz' ou 'A Praça de Touros de Sevilha', e dedicou outros a 'matadores' famosos, tais como Belmonte, Galitto, Manolo Gonzáles e Litri. Mas logo no primeiro poema do livro, dedicado ao amigo Antônio Houaiss, Cabral analisa as diferentes formas de tourear dos mais renomados toureiros, e conclui que o melhor deles era Manolete, apelidado entre os espanhóis de "El Monstruo" pela maneira seca, sem firulas, com que enfrentava o touro:
Alguns toureiros
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madri, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra,
o de figura de lenha,
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria,
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio Aparício,
de Madri, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra,
o de figura de lenha,
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria,
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel Rodríguez
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.
Tempos depois, João Cabral revelou em entrevista ao jornal "Folha de S. Paulo", publicada em 22 de maio de 1994, que a arte de Manolete lhe ensinara a eliminar da poesia todos os excessos, como se lê a seguir: "Naquele poema 'Alguns toureiros' eu digo que aprendi com Manolete a não poetizar o poema. Porque esse é o problema de muito poeta: é que ele faz um poema poético. Quer dizer, faz um poema a partir de elementos já convencionalmente poéticos. Ele perfuma a flor. É como você plantar uma rosa e depois achar que a rosa não está cheirando o suficiente e aí pôr, em cima da rosa, perfume de rosas para ela cheirar mais — ou seja, perfuma o poema".
Fonte:http://www.topbooks.com.br/Christine/Manolete.htm


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