segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Homenagem a um toureiro da Fé


Depois de um longo tempo longe dos estudos e artigos sobre a arte do toureio, Casa de Manolete rasga o silêncio para voltar ao silêncio do luto.

Hoje completam-se 5 meses que perdemos nosso caro professor Orlando Fedeli. Este homem que devolveu a Fé a tantos amigos espalhados pelo Brasil e também a nós. Este homem que nos ensinou - sempre gratuitamente pois a verdade não tem preço - a conhecer e amar a Deus e a sua Igreja. Amar filialmente o Santo Padre, Doce Cristo na Terra.

Devemos ao professor inclusive a dita graça de conhecermos a beleza da Tourada. Foi ele quem nos explicou os símbolos e os valores desta arte, e como ela nos aproxima de Deus.

A tourada ensina ao homem o seu local no drama da existência. Ela nos diz como se deve portar uma alma neste tenebroso vale de lágrimas, cheio de dores e amargos sofrimentos; como enfrentar o touro bravio da carne de nossas paixões concupiscentes; como domar a fera sedutora do mundo; como driblar as investidas furiosas do demônio, sem medo, de pé, com confiança em Deus e sob o manto da Virgem. Mas ai! Quantos tombos! Quantas imprudências e pecados cometemos neste combate tremendo que no final decidirá se mereceremos ou não passar pela "puerta estreita" dos eleitos. Coroado com a coroa da Glória imperecível, no bem eterno da beatitude celestial.

O professor Orlando pode se assemelhar a um toureiro destemido. Com sua elegante luta contra as hostes destemperadas dos infiéis e inimigos da Igreja. O homem domado pela razão, fazendo gestos nobres com a espada da inteligência inebriada de heroísmo, sedenta de bravura. Porque, caro professor, nossa inteligência, como o senhor nos ensinou, é uma espada em riste posta em combate para defender a honra da Igreja. Os argumentos são gestos prontos para estocar uma alma, matando-a para o mundo, e ressuscitando-a no Sangue do Cordeiro. A inteligência é espada santa que penetra fundo no coração irracional do pecado, no monstro desordeiro posto na arena da vida. Sem desespero, com garbor e graça; sem impaciência, mas sábia na hora do golpe fatal.

Professor Orlando e Dona Ivone Fedeli

E eis-nos aqui ainda a peregrinar en las plazas de la vida com a lembrança dum grande toureiro das terras brasileiras. Amante maior da beleza moral da tourada. Admirador dos que desprezam a vida por um gesto nobre que seja, maiormente pelos heróis do martírio. Deixando-nos mudos de tristeza naquela negra tarde de miúra em que o pano da vida se fechou para ele. Enegrecido seus olhos senis que já não viam mais as alegrias ingênuas dos alunos que descobriam a verdade de Cristo como o caçador de tesouros à sua arca perdida. Seu riso quedado no caixote de madeira serenava a cabeça forte dos argumentos santos. Não mais o sorriso cortante dos dias enfadonhos da modernidade acinzentada; não mais a presença agradável do pequeno italiano de conversa fácil e amizades perenes... e inimizades honrosas também. Há cinco meses que vive na Casa do Pai esse que a Ele devotou sua vida e se consumiu inteiro. Consumido pela beleza da Casa de Deus. Consumido, enfim, pela beleza da bravura. Daquela santa bravura que faz os homens mais homens, posto que santos e límpidos, como a espada que tendo da cruz a santa forma e a amarga doçura fosse escândalo para alguns, e, para outros, loucura.

Casa de Manolete não só homenageia o professor, mas oferece todos os esforços dos estudos sobre esta arte a ele, que foi verdadeiro toureiro da Fé, que nos deu sua a vida e seu amor. Por amor à Deus.

Recife, 09 de Novembro de 2010.

Nossa última aula e foto com o professor, 5 dias antes de seu falecimento.

Emílio Paulo Filho

Antonio Manuel

sábado, 21 de novembro de 2009

Do gol de bicicleta à onipotência suplicante

Casa de Manolete: É com grande alegria mediante a aquisição em ato da posse da verdade que só a Santa Igreja Católica dá a conhecer e pelas sábias palavras do estimado professor Orlando, seu filho, que trouxemos a todos os amigos e leitores do Casa de Manolete este presente intelectual e espiritual.

***


Do gol de bicicleta à onipotência suplicante

Orlando Fedeli

“La gloria di Colui Che tutto move,

Per l ‘universo penetra e risplende

in uma parte più e meno altrove”

(Dante, Divina Commedia, Paradiso I, 1-3).

“A glória dAquele que tudo move,

pelo universo penetra e resplandece,

numa parte mais e menos noutra”.

Esse magnífico terceto com que Dante inicia o primeiro canto de seu Paradiso é um dos mais belos da Divina Comédia e é prenhe de sabedoria. Com efeito, Deus, ato puro, move todas as coisas criadas, concedendo-lhes participação em graus e formas diversas em suas qualidades, fazendo-as passar de potência a ato.

Tudo o que se move, isto é, todas as criaturas compostas de ato e potência só podem se mover por uma ação de Deus, ato puro e, por isso mesmo, onipotente, que lhes permite passar de potência de uma qualidade para a posse daquela mesma qualidade em ato, normalmente por meio de uma causa eficiente segunda ou, por vezes, pela ação direta de Deus, causa eficiente primeira.

Parece haver uma contradição ao dizer que Deus, ato puro sem potência alguma, é também onipotente. Isto, porém, é correto porque, em Deus, não há potência passiva. Deus não pode receber qualidade alguma, porque possui todas as qualidades em ato e, portanto, tem todas as qualidades em grau máximo, não podendo perdê-las, nem aumentá-las e nem tê-las diminuídas.

E como Ele tem todas as qualidades em ato, Ele é capaz de transmitir essas qualidades a outros seres, que tenham potência para recebê-las, em forma e medida variada. Todo ser que tem uma qualidade em ato é capaz de atuar, passando a qualidade que possui em ato a outro ser que tenha potência de recebê-la. Assim, o fogo é quente em ato, e a panela tem potência de ser aquecida. Desse modo, o fogo aquece a panela passando-lhe calor, na medida e na forma em que a panela é capaz de receber essa qualidade.

Deus, tendo todas as qualidades em ato em grau absoluto, tem toda potência ativa de transmitir essas qualidades. Por isso Ele é onipotente ativo.

Portanto, temos que distinguir potência passiva de potência ativa.

Deus não tem nenhuma potência passiva. Deus tem toda potência ativa. Por isso, o Ato puro é Onipotente.

Toda potência, por assim dizer, deseja ser atualizada. E o ato, por assim dizer, deseja transmitir sua qualidade ao que está em potência para ela.

Ato e potência desejam-se mutuamente. Pode-se dizer, analogicamente, é claro, que o ato ama a potência, querendo passar-lhe um bem, e a potência deseja ser atualizada pelo ato.

Assim, é o amor que tudo move.

Por isso, o mesmo Dante finaliza a Divina Comédia, dizendo em seu último verso: “Amor che move Il Sol e le altre stelle”.

”Amor que move o Sol e as outras estrelas” (Dante, Divina Commedia, Paradiso, XXXIII, 143).

É o amor de Deus que tudo move.

Por isso, se diz, na Sagrada Escritura, que a Sabedoria de Deus se divertia, brincando com o globo da terra:

Eu estava com Ele regulando todas as coisas; e cada dia me deleitava, brincando continuamente diante dEle, brincando sobre o globo da terra, e achando minhas delícias em estar com os filhos dos homens” (Eclesiastes, VIII, 24-32).

A Sabedoria de Deus “brincava” com o globo da terra. [De passagem, já na Escritura se dizia que a terra era um globo. Como podem os doutores de dúvidas do século XX afirmar que a Idade Média desconhecia que a terra era redonda, se isso é expresamente dito em várias partes da Escritura? ( Sl.LXXVI, 19;Sl. XLIX, 12; SL XXIII, 1 )].

Como é ignorante o século da “imbecilidade e do ódio”, em que hoje vivemos!

O “Progresso” é uma ruína!

Claro que Deus não brincava como o globo terrestre. O termo “brincar” na citada frase da Escritura é analógico: assim como uma criança brinca com uma bola, porque gosta de movê-la, de fazê-la passar de potência a ato em movimento local, assim Deus ama mover as suas criaturas, pois lhes quer dar participação em suas qualidades.

Voltemos um instante aos magníficos versos de Dante citados inicialmente neste artigo.

A glória de Deus que tudo move, em algumas criaturas, penetra. Mas noutras apenas resplandece, sem nelas penetrar. Nos anjos e nos homens, a luz de Deus penetra, quer pela sua Verdade nas inteligências, quer pela graça santificante, Deus vive nos anjos bons e nas almas batizadas que cumprem a sua lei.

Mas, nas criaturas irracionais, naquela que estão privadas “d’intellectto e d’amore”, Deus apenas resplandece. Animais, vegetais e minerais não são capazes de receber a luz de Deus, a verdade, nem podem participar de sua santidade. Nesses seres, há apenas reflexos, vestígios de Deus, no bem que eles possuem, na ordem que os rege, nos símbolos de Deus que possuem. Nos anjos e nos homens há mais: há imagem de Deus porque esses seres têm inteligência e vontade, como Deus, que é Inteligência infinita e Vontade ou Bem infinito.

Enquanto que nos santos há mais ainda: há semelhança com Deus.

Deus é luz. “Deus lux est”, diz a Sagrada Escritura (I Jo, I, 5). E a luz divina em tudo penetra e resplandece. Por isso tudo é feito de luz. E a luz intelectual brilha nos anjos e nos homens, enquanto nas criaturas irracionais a luz se manifesta no colorido e no brilho. Por isso, o diamante e o ouro são belos e desejáveis, pois que neles a luz resplandece de modo extra-ordinário. Deus ama todos os seus filhos. Mas nos santos ele se rejubila.

E assim como a luz e o calor do sol derretem a cera e endurecem a lama, assim alguns homens, livremente, recebem a luz divina em coração brando, enquanto outros endurecem o seu coração à luz de Deus, como os judeus em Meribá: “Não endureçais o vosso coração como em Meribá, nas águas da contradição” (Sl XCIV, 8).

*****

O movimento:

Movimento ou mudança é toda passagem de potência a ato.

Comumente, pensa-se que movimento é apenas a mudança de local. Na verdade, em toda mudança de qualidade, de situação, de estado, como na mudança de local, há sempre uma passagem de potência para ato.

Os seres são tanto mais perfeitos quanto mais têm qualidades em ato. Quanto mais um ser está em ato, mais ele se assemelha a Deus, que é puro ato, sem potência passiva.

O ser menos perfeito é aquele que tem menos ato e mais potência passiva. Este ser é a matéria. Ela, pelo menos tem um ato: o da existência. A matéria está pronta a receber muitas qualidades de outros seres que a movam.

Nós, seres humanos, também nós, como Deus, temos felicidade em mover outros seres, desde mover uma bola até mover homens. Na vida, passamos o tempo movendo a nós mesmos, movendo outros, e movendo as coisas. Claro que mover as coisas é muito menos que mover homens, mover outros ou a nós mesmos.

E assim como está escrito que Deus “brinca” com o globo da terra, a criança gosta de mover uma bola.

A esfera é o corpo geométrico mais móvel, e, por isso mesmo, é o mais adaptado a ser movido por nós. Daí, os esportes mais comuns serem com bolas (futebol, vôlei, golf, pólo, handball, tênis, ping-pong, boccia, etc). Ou então com rodas (corridas com todos os tipos de veículos, ou corridas entre homens competindo para constatar quem se move mais rápido).

O esporte é a atividade de movimento mais baixa que podemos ter. É evidente que praticar um esporte faz bem ao corpo e à alma, e que isso é até necessário, especialmente aos jovens, para gastar energias, e para se prepararem para as sérias lutas da vida. O esporte é bom para a juventude. Mas a fanatização das massas pela mera assistência de competições, a entrega exagerada às emoções esportivas excessivas, o viver em função de emoções nas competições esportivas atuais é danosa.

As gigantescas competições esportivas atuais fazem viver só para a emoção e para ter domínio de movimentos físicos, que são os mais baixos. Hoje, os homens se preocupam com os campeonatos, esquecendo os movimentos mais importantes: as ações espirituais, religiosas, políticas, artísticas, etc.

Toda sociedade que supervaloriza o esporte, como a nossa sociedade, é decadente. Os romanos só começaram a se divertir com os jogos de arena, quando decaíram. Depois de se divertirem com a morte alheia, perderam o heroísmo, e passaram a contratar bárbaros que os substituíram no porte das armas. Até que os bárbaros voltaram as armas contra eles. E se acabou o império. O que foi pena. E se acabou a crueldade da arena. O que foi ótimo.

Os homens são como as árvores. Quando uma árvore começa a morrer, o broto apical, aquele que cresce mais para o alto, já não recebe a seiva de que precisa, e então se estiola e morre. A seiva, que já não alcança o cume da árvore, se acumula nos galhos inferiores que crescem e engrossam muito. Quem não conhece a vida das árvores se impressiona com aquelas que têm troncos e os galhos baixos muito grossos, e não sabe que isso é o prenúncio da morte da árvore. Assim também ocorre com as sociedades: toda sociedade decadente, não conseguindo mover o que é mais elevado, se dedica a mover coisas inferiores. Por isso, todo povo decadente se torna grande praticante de esporte.

É claro que todo movimento, até mesmo o físico, fazendo passar algo de potência para ato, de certa forma, sempre torna o homem semelhante a Deus que tudo move. Todo movimento tem uma certa beleza e uma certa bondade, na medida que atualiza um ser.

Tomemos como exemplo o mover de uma bola.

Por que um gol de bicicleta entusiasma e tem beleza?

No gol de bicicleta, o jogador, vendo a bola passar um tanto longe de si, e estando ele de costas para o gol, se lança repentinamente no ar, movimentando as pernas como se estivesse nadando no espaço. Ele, durante certo tempo, domina e vence a força da gravidade e, subitamente, alcança bola com um dos pés e lhe dá um impulso deslocando-a no ar em direção ao gol, que o jogador nem está vendo, pois que está de costas para ele. O movimento surpreende a todos e o goleiro, normalmente, nem tenta defender o gol, tal a surpresa e a rapidez do lance. A beleza do gol de bicicleta vem da destreza em dominar a força da gravidade, fazendo a bola ter um movimento local preciso, rápido e surpreendente contra toda a expectativa.

Toda criança gosta de brincar com uma bola, porque ela percebe que é capaz de mover algo. Como Deus, que tudo move.

É claro que dominar a matéria e fazê-la se mover é a ação mais baixa e mais fácil que existe. A de menos valor.

Mais inteligente e mais elevado é o domínio que tem um grande jardineiro ao planejar e construir um jardim, formando desenhos com as plantas, como se fosse um bordado.

No jardim francês, a arte consiste em modelar os arbustos dando-lhes formas geométricas e, com eles, desenhar arabescos e bordados vegetais e floridos. Conta-se que, - e se non è vero, è bene trovato – originalmente Lenôtre fez o jardim de Versailles, colocando nele flores de toda a França, mas de tal modo que os perfumes diversos se unissem num único perfume próprio apenas do jardim real de Versailles. E assim como todas as flores da França se uniam num só perfume, todos os franceses estavam unidos num só rei.

Repetimos, se isso não foi verdade, a idéia é muito bem achada.

A pretensão do jardim francês era olímpica: dominar completamente a natureza pela razão. Com tesoura e régua. Como se estivesse no homem o dominar completamente a natureza só por meio da razão. Como se não existisse pecado original. Foi no jardim de Versailles que os constitucionalistas revolucionários se inspiraram para pretender fazer uma constituição escrita perfeita, que dominasse a sociedade conforme planos, tesouras e apitos. A guilhotina foi a tesoura político-social com a qual Robespierre pretendia exercer a função de jardineiro social. Daí, nasceram as Constituições escritas, com pretensão utópica de organizarem definitiva e perfeitamente a sociedade, como se a sociedade fosse uma máquina. Daí, nasceu também a nossa constituição-cidadã, a do Ulisses Guimarães, a mais remendada das constituições, e a menos respeitada. Portanto, foi também do espírito utópico do jardim francês, de Versailles, que nasceram O Terror de Robespierre, o Gulag de Stalin e genocida Auschwitz de Hitler.

O jardim francês, racionalista e geométrico afirma que razão humana por si mesma, sem Deus, é capaz de controlar plenamente a natureza. Ele nega o sobrenatural e é pelagiano. O homem com suas próprias forças seria capaz de dominar a natureza decaída de Adão e refazer com a técnica o paraíso terrestre. O jardim francês, como todo o constitucionalismo, é racionalista e utópico. Ele julga que o homem, de per si, é onipotente ativo. O jardim francês tudo quer regrar geometricamente.

Isso não significa que o jardim inglês seja melhor.

O jardim inglês é irracional. Ele recusa o geometrismo aplicado às plantas pelo jardim racionalista francês. O jardim inglês quer a liberdade, o capricho, o laguinho de contorno sinuoso, a pontezinha em arco caprichoso. O jardim inglês quer imitar a liberdade da floresta. Ele nega que a natureza precisa ser dominada, controlada. Ele recusa crer no pecado original: a natureza seria sempre boa. O jardim inglês dispensa a razão e a tesoura. Recusa regras.

O jardim inglês é irracionalista e acredita na bondade natural. Ele é romântico e milenarista, sonhando uma natureza edênica e a possibilidade de voltar para ela.

Porém, deixando de lado este parêntese sobre jardineiros que pretendem dominar absolutamente o movimento das plantas,ou dar-lhes liberdade absoluta, deve-se admitir que a capacidade humana de dominar a natureza vegetal, fazendo belos jardins é evidentemente superior à atividade esportiva. Mover plantas é mais elevado do que mover bolas.

Ora bolas!

Por sua vez, um treinador de animais exerce uma capacidade de produzir e controlar movimentos superiores aos do jardineiro, pois a planta não tem instintos, não têm sistema nervoso, e nem movimentos físicos, enquanto o animal tem instintos que o fazem mover-se a si mesmo em busca de comida e reprodução, sendo então capaz de ataque e de defesa ativa.

Nesse sentido, o treinamento de golfinhos, que são capazes até de indicar onde há minas submarinas ou de apontar aos pescadores onde há cardumes de peixes a pescar, como se pode ver em Laguna/ SC, é algo admirável.

Os famosos “Cavalos de Viena”, que aprendem a “dançar” e a fazer reverências, causam admiração a qualquer um. E quem não se entusiasma vendo nas touradas a cavalo a habilidade do cavaleiro e do cavalo driblando espetacularmente as investidas furiosas do touro? Não se sabe quase o que mais aplaudir, se o cavaleiro ou se a destreza do cavalo, que dominando o medo, engana o touro, dançando ante suas arremetidas cegas de fúria.

E então como deixar de falar do toureiro que, com sua capa, faz o touro obedecê-lo, até a fera indômita baixar a cabeça e ficar com as patas juntas a fim de receber o golpe mortal, enquanto o próprio toureiro domina e move o seu próprio corpo com elegância, evitando os golpes do touro, controlando o seu próprio medo da morte, assim como o medo - não menor - da vaia do público.

O que faz a unanimidade da reação do público aplaudir entusiasticamente o toureiro é o contemplar a alma humana, dominando os movimentos do touro bravio e os movimentos do próprio homem, tremendo, mas firme, e mais que firme, elegante, diante da morte.

Al sol.

*****

Dominar os movimentos humanos

Se o domínio dos seres irracionais honra o homem, muito mais o honra dominar-se a si mesmo e dominar os instintos de outros homens. Controlar os seus próprios movimentos instintivos e de qualquer tipo que sejam.

Não, leitor que me detesta e que me lê com raiva, domine-se. Não se precipite em me interpretar mal.

Quando falo em domínio dos instintos próprios e alheios, não me refiro a nada de tirânico. Refiro-me, antes de tudo, aos carinhosos cuidados maternos de uma mãe ensinando seu filhinho a dominar-se, a falar e a comer corretamente.

A mãe que ensina seu bebê a balbuciar e dizer as primeiras palavras, ela o ensina a controlar seus movimentos labiais e o faz passar da potência passiva de falar ao ato da fala. E que alegria dos pais ao ouvirem, pela vez primeira um filhinho dizer, balbuciante ainda e mal: ma-ma-ma... Mamãe! Ou ainda pa-pa-pa. Papai!

Também Jesus Cristo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, uno na substância ao Pai e ao Espírito Santo, Ele, o ATO puro, sem qualquer potência passiva, Ele, Deus, encarnando-se num homem, enquanto homem, tinha potência de aprender a falar. E Maria Santíssima foi sua mestra humana que lhe deu palavra. Foi Ela que fez passar Jesus, o Verbo encarnado – verdadeiro Deus e verdadeiro homem - da potência humana de falar ao ato de falar.

Ela deu palavra ao Verbo.

Vi recentemente, na Bretanha, tão devota de santa Ana, uma estátua da Mãe de Nossa Senhora ensinando-a a ler. Era uma estátua mal esculpida que mostrava Santa Ana sentada, segurando um rolo da Escritura, enquanto a pequena Virgem Maria - parecendo ter uns três anos — acompanhava com o dedinho a linha escrita, apontando atenta e preocupada as letras no pergaminho, silabando a escrita: bon-da-de. Bondade.

Que alegria a de Santa Ana ouvir a Virgem Maria, concebida sem pecado, aquele menina trono da sabedoria, aprendendo a soletrar.

Toda mãe, ao educar uma criança, faz com ela passe da potência de controlar seus movimentos desordenados decorrentes do pecado original para o domínio - em ato - do instinto de conservação. Pois toda criança nasce selvagem, com instintos animais descontrolados. Inicialmente, os movimentos apenas se manifestam - e decontroladamente -, visando a conservação da vida física. A criança coloca tudo na boca. Doce. Um palito de fósforo. O sorvete. O dedo. O cabo do guarda chuva. A torrada. A cocada. A faca. E mete a mãozinha no molho da panela. E se queima. E se suja. E se lambuza. E lambuza tudo em volta de si.

A mãe a educa, ensinado-a a controlar seus movimentos, transformando em ato a potência de aprender da criança: “Não fale, enquanto come. Não fale, enquanto mastiga”.

Educar é passar de potência a ato certas qualidades que fazem da criança, nascida selvagem, passar a civilizado. A educação faz a pessoa descontrolada a ter todos os seus movimentos virtuosamente controlados. E com a graça adquirir caridade e santidade. A educação é o primeiro passo para a santidade.

Certa vez, li um texto de educação dos aztecas. Esse povo era terrivelmente cruel e antropófago. Comenta-se que, na inauguração do grande teocali de Huitzlopotchili, no México, num só dia, os aztecas mataram e comeram 72.000 prisioneiros. Calcula-se que, se não tivesse lá chegado Cortez com 400 espanhóis, eles teriam despovoado toda a América Central com o genocídio que diariamente praticavam.

Pois esses antropófagos ensinavam os filhos a bem se comportarem ao comer. Coisa que raramente se vê em nossas cidades modernas, ditas civilizadas. Pois o manual de educação azteca que li, me fazia ouvir um pai azteca, dizendo a seu filho:

“Quando você for convidado a um banquete, tome cuidado em não falar de boca cheia, porque pode ser que um pedaço do está comendo caia sobre o manto de um companheiro, a seu lado”.

“Não estenda apressada a mão para pegar a comida. Espere que outros se sirvam antes”.

“Caso haja pouca quantidade de comida, deixe os outros convivas comerem antes que você. Não dispute pela comida”.

Etc. (Estou citando de memória, e não “ipsis litteris”.

Como faria bem uma reedição do manual educativo azteca para os jovens “civilizados de hoje...

Claro, sem o cardápio azteca.

Educar é inculcar na criança a idéia de que ela tem uma natureza desordenada que precisa ser controlada. Que os instintos humanos são descontrolados. Que é preciso ter consciência que nossa natureza, deixada a si mesma, tende ao vício. A educação inculca na criança o princípio da auto censura, primeiro degrau para o exame de consciência diário, para pessoa se auto controlar. Desse modo, educar uma criança é dar-lhe apoio para subir o primeiro degrau da santificação. A educação é para o céu. Também a educação é arte que faz atualizar potências humanas.

Vê-se a criança educada no comportamento que ela tem nos locais públicos. Quando uma criança, na padaria, no banco, na Igreja, se comporta como se estivesse em seu quarto, ou no quintal de sua casa, é sinal que sua mãe não a soube educar. A criança grita. Pula. Agita-se. Bate o pé. E exige aos berros o que deseja. Descontroladamente. Chora. Empurra. Quebra as coisas. Tudo isso é sinal de que a mãe dela precisava ela ser corrigida. Ou ler o manual de educação azteca.

Se na infância não se ensina a criança a dominar seu instinto de conservação, comendo ordenadamente, como se controlará essa criança na puberdade, quando surgir o instinto de reprodução? O guloso e o egoísta, na infância, muito dificilmente será puro na adolescência.

Se é admirável controlar os movimentos de uma bola, de uma planta, e de um animal, como não será belo controlar o movimento de homens?!

Se se admira um jogador de futebol por sua habilidade em fazer a bola passar de potência a ato num movimento local apenas, se se admira um malabarista e acrobata, se se admira um técnico que domina a matéria, e um domador de animais, como não admirar um bom professor dominando uma classe de pequenos selvagens em estágio de passarem a ser civilizados?

Como não admirar um maestro que dirige um coral, controlando todo o movimento das vozes variadas no tempo e no tom, fazendo-as serem uma só voz e uma só harmonia?

E que faz um capitão de cavalaria, arrastando seu esquadrão para o heroísmo, para a dor, e para a morte, senão dominar o medo da morte?

Lembro-me de Lassalle, coronel de cavalaria de Napoleão, na batalha de Rivoli, em 1797. No final da batalha, Lassalle, caindo de cansaço, apresentou-se ao então jovem general Bonaparte – [que detesto] - carregando um grande número de bandeiras austríacas, tomadas à custa de dor, ferimentos, mortes e heroísmo. E Napoleão disse então a Lassalle, que, tendo se apeado de seu cavalo, se segurava arfante na sela, quase caindo de fadiga: “Couche-toi dessus, Lassalle, tu l’as bien merité” (Deita-te sobre as bandeiras, Lassalle, você bem o mereceu”).

Assim se recompensa quem sabe passar da potência do heroísmo ao heroísmo em ato.

E mais admirável então é o mestre de noviços que “educa” para a santidade, fazendo de um homem, cheio de defeitos, um grande santo.

Admiráveis foram os santos, como São Bento que civilizou os bárbaros, e que com suas Abadias refez a Europa

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Mover Deus

Mostramos que o mover as coisas faz do homem, de certo modo, um ser semelhante a Deus que tudo move.

Mostramos ainda — embora com nossa dificuldade de expressão – que o ato de mover é tanto mais admirável quanto mais perfeito é o ser movido, e quanto mais alta é a perfeição buscada, que é, de fato, alcançada em ato.

Sendo assim, como é admirável a luta de Jacó com o anjo.

Jacó lutou uma noite toda com um anjo para que este o abençoasse, dizendo-lhe : “Não te deixarei partir sem que me abençoes”. É evidente que o anjo podia vencer Jacó desde o inicio.

Mas, como queria Deus que Jacó adquirisse confiança para enfrentar Esaú, o anjo simulou não poder vencer. E no final, depois de derrubar Jacó, paralisando um nervo de sua perna, o anjo o abençoou e trocou o nome de Jacó para Israel, que significa “forte contra Deus”.

Israel, forte contra Deus.

Nome terrível, misterioso e ambíguo.

Misteriosamente ambíguo.

Forte contra Deus.

Como forte contra Deus?

Como inimigo de Deus?

Como suplicante?

Tremenda ambigüidade do nome.

A oração de Jacó se mostrou forte contra Deus, arrancando do anjo o que este não queria lhe dar.

Porque Deus, o Ato puro, pode ser “forçado” por nossa oração. Dando-nos o que não planejava nos dar.

Por isso Deus clamava contra Moisés que cessasse de O implorar com as mãos erguidas, porque sua oração O impedia de castigar o povo infiel de Israel.

A oração é o grande meio de salvação, disse-nos Santo Afonso. E os exemplos da Escritura e da história dos santos mostram-nos que Deus quer ser “forçado” a nos dar o que pedimos.

Por isso, a Sabedoria de Deus, quando andou pela aterra, nos disse: “Pedi e recebereis. Batei e vos será aberto”.

Porque a potência implora o ato. Porque o ato quer ser rogado pela potência passiva. O ato puro contempla as potências de suas criaturas querendo atendê-las. Potência contemplando o ato com admiração e súplica. E ato e potência se amam. Um desejou a outra. A potência desejando o ato. O ato desejando dar-se à potência.

Assim como a justiça e misericórdia, o Ato e Potência “se encontraram e se beijaram na face.”

Assim...

Assim a vela do veleiro, na calmaria, aguardando ansiosa a ventania.

Assim, o vento, na imensidão do mar, procurando a vela que deseja inflar.

Ah, alegria do vento enfunando a vela!

Ah, alegria da vela impelida pela ventania!

Vento que busca na imensidão da terra uma bandeira altiva.

Bandeira pendente no mastro, em desafio querendo ser sacudida.

Ah, a altivez da bandeira vibrando ao vento!

Ah, o entusiasmo do vento fazendo vibrar o heroísmo de bandeira erguida.

Assim também, a página vazia que, paciente, aguarda ser escrita.

Assim desejo da caneta de colocar palavras e verdades na página vazia.

Olhar de aluno atento, sorvendo verdades.

Palavra do professor derramando a doutrina em alma atenta.

Terra seca que tem sede.

Chuva generosa que à terra, humedecendo, torna fecunda.

Ouvido esperando a verdade.

“Boca que profere a verdade. Lábios que detestam o ímpio”.

Ah! “a alegria de um barco voltando”...

Ah, o cálido acolhimento “das distâncias nos velhos portos”.

Flauta que, quieta e muda, espera o sopro e a melodia.

Doçura do artista beijando a flauta, soprando sua alegria..

Arco desejando ser retesado para impelir a flecha.

Seta frágil desejando ter força para alçar seu vôo ligeiro e certo. “À temps et lieu”. Em tempo e lugar certo.

Carta de longe querendo ser lida.

Oh, a alegria lendo carta amiga!

Rebeca descendo do camelo venerando Isaac no fim de um dia.

Isaac recebendo Rebeca junto ao poço “Vive quem me vê” no doce crepúsculo, um dia.

Clamor do filho pródigo voltando arrependido.

Júbilo no abraço do pai enternecido.

Potência clamando em sua impotência.

Ato absoluto, atendendo a miséria com sua onipotência.

Ato e potência, na doce união da alegria

A criatura deseja Deus e sem Ele tudo é vazio. E – oh coisa incrível e admirável — o Ato deseja dar-se à potência. A riqueza deseja satisfazer a miséria. Deus nos ama em nossa impotência, em nossa pobreza ontológica e na medida em que reconhecemos ser miserável potência incapaz, por si mesma, de fazer qualquer coisa.

“Sem mim nada podeis fazer”, disse-nos Jesus, Deus encarnado.

Foi por isso que a Virgem Maria, reconhecendo-se como simples escrava de Deus, arrancou de Deus a encarnação do Verbo.

Eis aqui a escrava do Senhor” disse Ela. E por aceitar ser quase como pura potência passiva, sem valor diante e comparada ao Ato puro, é que Ela obteve o Espírito de Deus, e que se encarnasse nEla o Altíssimo.

Faça-se me mim segundo a tua palavra”.

E à súplica da potência ao Ato fez com que O Verbo de Deus se fizesse homem. E o Verbo de Deus se fez carne. E habitou entre nós.

E ele era cheio de graça e de verdade.

Foi a súplica humilde de Maria sempre Virgem que obteve de Deus a encarnação do Verbo.

Oh, alegra-Te filha de Sion, porque Deus te ouviu. Exulta filha de Jerusalém, porque o Altíssimo se fez menino em teu seio. A plenitude preencheu o nada de nossa humanidade.

Tu, filha de Jerusalém, exulta, porque grandes coisas fez em Ti o Onipotente, Aquele que é Santo.

Tu, glória de Jerusalém. Tu, alegria de Israel. Tu, honra de nosso povo. O Ato puro, em ti, se fez homem com potência capaz de sofrer. De ter paixão. De ser agoniado. De ser chicoteado. De ser amarrado. De ser coroado de espinhos. De ser crucificado, e de ser morto por nós. De ter o que é próprio da potência passiva: patere. Ser passivo. Ele, o Onipotente foi manso e humilde de coração.

E, durante trinta anos, o Onipotente serviu Maria e a José, trabalhando a madeira, fazendo da madeira uma cadeira e uma mesa, fazendo a potência da matéria passar a ato. E quando ainda não chegara o tempo, em Caná, Ele ainda não queria fazer um milagre. Que não era a sua hora. Mas, aquela que era sua Mãe lho pediu e sua súplica mudou os planos de Deus. E a água foi feita vinho. Porque ela era a Mulher, aquela que fora prometida na aurora da humanidade, quando Deus prometeu que a Mulher esmagaria a cabeça da serpente.

E como seus milagres começaram pela suplica de Maria Virgem Mãe, assim também, na hora de sua morte, Ele a deixou em testamento para nossa Mãe e protetora dizendo-lhe: “Mulher, eis aí teu filho”. E Ele nos fez então filhos de Maria, para que Ela, suplicando o Onipotente, fizesse de nossas míseras potências ato, que nos permitem realizar atos agradáveis a Deus.

Tudo o que Maria, que se disse a escrava do Senhor, pede, Ela o alcança do Onipotente, para nos ensinar que também nós podemos “mudar” os planos de Deus através da súplica, desde que peçamos como miseráveis impotentes. Porque Deus ama atender seus filhos. Pois o Onipotente ama a súplica da pura potência. Pois, Ele nos disse: “Pedi e recebereis”. “Batei, e se vos abrirá”. Porque o Onipotente se agrada em atender a súplica da impotência.

A oração tem o poder de mover o Imóvel. De mover a Deus.

Maria, a onipotência suplicante.

Mas se Maria, a criatura mais perfeita se disse escrava, só podemos mover a Deus imóvel se Lhe pedirmos por meio de Maria, nas mãos de quem Ele colocou todos os seus tesouros de graça e de santidade.

Por isso, dela escreveu um poeta:

Vergine Madre, figlia Del tuo Figlio,

umile e alta più che creatura,

termine fisso d’ etterno consiglio,

Tu sei Colei che l’umana natura

nobilitasti sì, che Il suo Fattore

non disdegnò di farsi sua fattura.

Nel ventre tuo si raccese l´amore

per lo cui caldo nell´etterna pace

cosi è germinato questo fiore.

Qui sei a noi meridiana face

di caritate, e giuso intra i mortalli

sei di speranza fontana vivace.

Donna sei tanto grande e tanto valli

che qual vuol grazia ed a te non ricorre,

sua disianza vuol volar senza ali.

La tua benignità non pur socorre

A chi domanda, ma molte fiate

Liberamente al dimandar precorre.

In te misericórdia, in te pietate.

In te magnificenza, in te s´aduna

quantunque in creatura è di bontate”.

Virgem Mâe, filha de teu Filho,

humilde e mais elevada que toda criatura,

objetivo fixo da eterna sabedoria,

Tu és aquela que a natureza humana

Enobreceu tanto, que seu Autor

Quis fazer-se tua feitura.

Em teu seio se reacendeu o Amor

a cujo ardor, na eterna paz

assim germinou esta flor.

Aqui és para nós meridiana face

de caridade, e lá embaixo entre os mortais

és de esperança fonte viva.

Mulher, és tão grande e tanto vales,

Que quem quer graça e a ti não recorre

Seu desejo é de voar sem ter asas.

A tua benignidade não só socorre

a quem pede, mas muitas vezes,

generosamente ao pedir precede.

Em ti misericórdia, em ti piedade,

Em ti magnificência, em ti se reúne

tudo quanto na criatura há de bondade”

(Dante Alighieri, Divina Commedia, Paradiso, XXXIII, 1-21)

O Ato e a potência se encontraram e se beijaram na face.

São Paulo, 13 de novembro de 2009.

Orlando Fedeli


Para citar este texto:

Orlando Fedeli - "Do gol de bicicleta à onipotência suplicante"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=religiao&artigo=gol-de-bicicleta=bra
Online, 22/11/2009 às 03:42h


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Em uma província espanhola, um crepúsculo dos matadores

LA VANGUARDIA

UOL

2/10/2009

Em uma província espanhola, um crepúsculo dos matadores

Michael Kimmelman

Em Barcelona (Espanha)

EMENTA: O que poderia acabar com as touradas seria a indiferença pública, a competição por parte de entretenimentos mais baratos como o futebol e os videogames e a morte de uma geração de aficionados.

Paco March concorda ao ouvir falar dessa conexão. Nativo de Barcelona, ele é o colunista de touradas do " La Vanguardia ", o segundo maior jornal da cidade. A sua filha de 15 anos é chamada de fascista pelos colegas de classe, diz ele, porque ela traz uma foto de um toureiro no caderno. Diz: "Fico furioso pelo fato de que, em nome da democracia, uma minoria de oponentes do toreo é capaz de acabar com os direitos de uma outra minoria, os aficionados, que estão desfrutando daquilo que neste país é um espetáculo legal que expressa verdades profundas sobre a vida e a morte levadas ao extremo".

Os aficionados falam desta forma. Eles observam como as touradas tornam a morte clara e visível em uma época em que a maioria das pessoas, aquelas que podem fazer tal coisa, opta por distanciar-se dessa realidade.

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Aqui na Catalunha, esta região persistentemente separatista da Espanha, as touradas enfrentam dificuldades há eras. E a economia não tem ajudado. Os preços dos ingressos para as touradas são equivalentes aos das óperas. E a produção das touradas é uma atividade cara. Neste ano o número de touradas despencou em toda a Espanha.

Mas Jose Tomas ainda atrai enormes multidões. Para os aficionados, ele é a última grande esperança para o "toreo", conforme as touradas são chamadas por aqui. Reservado, um matador dotado de um destemor e uma calma sobrenaturais, cercado de histórias e de mistérios, ele aposentou-se em 2002, aos 27 anos, e no auge da fama, apenas para retornar inesperadamente cinco anos mais tarde em Barcelona para uma tourada que seria a primeira com venda total de ingressos em 20 anos.

O toureiro José Tomas tenta pegar uma galinha que foi jogada na arena durante tourada em Ciudad Real , Espanha. Apesar do declínio das touradas na Catalunha, o matador continua atraindo multidões

Todos os 19 mil lugares do Plaza Monumental, a bela arena de tijolos e azulejos desta cidade, foram vendidos.

No último domingo ele estava de volta, para mais uma ocasião especial: talvez a última tourada na Catalunha. Nas últimas três décadas, a queda do interesse dos jovens catalães somou-se à pressão dos defensores dos direitos dos animais e dos nacionalistas da região para acabar com o toreo na Catalunha.

Nas quatro províncias da região, as arenas de touros foram fechadas; a de Barcelona é a única que ainda encontra-se ativa. Agora um referendo no parlamento catalão poderá acabar completamente com as touradas na província. Muito se tem falado nesta parte da Espanha sobre uma proibição total do toreo. Os fãs minimizavam o fato. Mas, desta vez, até mesmo os aficionados acreditam que é provável que a proibição seja aprovada.

Assim, a corrida do domingo - o termo refere-se a uma apresentação regular à tarde de três matadores e seis touros - seria mais do que apenas a última tourada da estação. Ela marcaria também o fim de uma era. E Jose Tomas (Jose Tomas Roman Martin, mas todo mundo o conhece pelo primeiro nome composto) chegou, naquilo que parecia ser uma última tentativa de preservar as touradas. Ele trouxe a sua arte e o sucesso de bilheteria.

Arte sim, mas para os aficionados. Esta é a arte do ritual, antiga e colorida, com a sua sequência de movimentos, firmemente executados mas, como os touros sempre variam, diferentes a cada vez. Uma sequência que resulta na graça de um balé por parte dos matadores, que são julgados também pela capacidade de fazer com que os touros movimentem-se graciosamente. As touradas fazem parte do patrimônio cultural espanhol, dizem os fãs. A Europa pode desejar unir-se em torno de interesses sociais e econômicos comuns, mas as culturas nacionais precisam ser respeitadas, e o toreo representa diversidade cultural.

É claro que os oponentes veem a questão de outra forma. Cerca de doze defensores dos direitos dos animais estavam em frente à arena no domingo, portando cartazes manchados de tinta vermelha.

Na rua, no La Gran Pena , um bar frequentado pelos fãs das touradas, Isabel Bardon, a proprietária, equilibrava uma bandeja cheia de cervejas enquanto atendia a uma multidão de fregueses, alguns deles esticando o pescoço para ver o matador aposentado, que sorria para fotografias ao lado de homens idosos que fumavam grossos charutos. "Isso seria uma má notícia para mim e o meu negócio", disse ela, referindo-se à possível proibição das touradas.

Pode ser. Quem sabe? O que está evidente é que, nos primeiros anos do século passado, Barcelona tinha pelo menos três arenas de touros. A cidade era uma meca para os fãs. Entre as décadas de vinte e sessenta houve mais touradas aqui do que em qualquer outra cidade espanhola.

Mas os nacionalistas catalães passaram a espalhar a ideia de que o toreo seria uma imposição à Catalunha feita pelo regime fascista de Franco, que promovia as touradas, bem como o "flamenco", um símbolo patriótico.

A oposição às touradas transformou- se em uma declaração de separatismo por outros meios. Os direitos dos animais surgiram depois e alimentaram a agenda nacionalista.

O fato de a questão continuar sendo sobretudo política é demonstrado do outro lado da fronteira, na região catalã do sul da França, onde as touradas são defendidas de forma tão feroz quanto são combatidas na Catalunha espanhola, por exatamente as mesmas razões separatistas. No caso dos catalães franceses, o motivo é o fato de as touradas terem sido proibidas por Paris.

"Em um momento em que a Europa está se tornando maior e mais multicultural, Barcelona fica menor e mais catalã", opina Robert Elms, um escritor britânico que já morou aqui. Ele veio para ver Jose Tomas, e observou, antes da tourada, como a cidade sombria, mas mágica, que ele conheceu no passado transformou- se em um local brilhante modificado por designers, mas que, não obstante, parece cada vez mais introspectivo.

"É a futilidade", diz ele. "Esta é a única palavra para descrever o que se passa. A futilidade descreve uma cultura insegura". Ele acrescentou que a possibilidade de proibição das touradas equivale a uma lei daqui que exige que as crianças nas escolas recebam grande parte da sua educação em catalão, e não em espanhol.

Paco March concorda ao ouvir falar dessa conexão. Nativo de Barcelona, ele é o colunista de touradas do " La Vanguardia ", o segundo maior jornal da cidade. A sua filha de 15 anos é chamada de fascista pelos colegas de classe, diz ele, porque ela traz uma foto de um toureiro no caderno.

"Fico furioso pelo fato de que, em nome da democracia, uma minoria de oponentes do toreo é capaz de acabar com os direitos de uma outra minoria, os aficionados, que estão desfrutando daquilo que neste país é um espetáculo legal que expressa verdades profundas sobre a vida e a morte levadas ao extremo".

Os aficionados falam desta forma. Eles observam como as touradas tornam a morte clara e visível em uma época em que a maioria das pessoas, aquelas que podem fazer tal coisa, opta por distanciar-se dessa realidade. Algumas dessas mesmas pessoas concordam com a pecuária em escala industrial ao comerem carne, mas elas condenam as touradas. Ou elas vão a touradas em lugares como Portugal, onde os touros não são mortos pelos matadores. Os animais são abatidos depois, fora da arena, para que ninguém veja.

Para os matadores, isso é totalmente injusto, porque nega a eles a sua obrigação para com os touros, com os quais eles lutaram, e não lhes proporciona a vulnerabilidade especial que eles deveriam experimentar nesse momento da tourada.

Concordando ou não com esse argumento, seria um erro concluir que um fim das touradas aqui seja o prelúdio de uma proibição em toda a Espanha.

Embora três quartos dos espanhóis afirmem não ter interesse pelas touradas, eles detestam que estrangeiros lhes digam o que podem ou não fazer. É por isso que a Espanha tem resistido consistentemente às pressões do Parlamento Europeu e do Tribunal Europeu de Direitos Humanos para acabar com o toreo. O que poderia acabar com as touradas seria a indiferença pública, a competição por parte de entretenimentos mais baratos como o futebol e os videogames e a morte de uma geração de aficionados.

Assim, na luz fraca de uma tarde quente do início do outono, em meio aos clarões de lâmpadas e gritos de "Torero!" e "Olé", Jose Tomas apareceu pelo menos uma última vez em Barcelona, como principal representante de uma arte que enfrenta problemas. Ele executou a sua série usual de passes emocionantes com os touros. Assim como Roger Federe, ele faz com que cada movimento pareça ser impossivelmente lento e estilizado.

"Esta corrida talentosa para terminar a estação pode ter sido a última nesta arena", lamentou o "El Pais", o jornal espanhol, na manhã seguinte. "Que vergonha o fato de os políticos proibirem as touradas aqui".

March, o colunista de touradas do " La Vanguardia ", expressou-se de forma mais contundente. "Nós queremos ser diferentes do resto da Espanha ao não matarmos touros", disse ele. "Mas o que nós estamos matando é a nossa cultura".

Tradução: UOL